Quando o diagnóstico muda mais do que a visão
Receber o diagnóstico de baixa visão pode transformar a maneira como uma pessoa enxerga o próprio presente e imagina o futuro. Além das mudanças visuais, podem surgir preocupações relacionadas ao trabalho, aos estudos, à mobilidade, à independência e às atividades que antes eram realizadas com facilidade.
A Organização Mundial da Saúde reconhece que as alterações visuais podem afetar a independência, as oportunidades e a qualidade de vida. Por isso, o cuidado não deve se limitar apenas aos olhos: a saúde emocional também precisa ser considerada.
É comum que, depois do diagnóstico, a pessoa sinta medo, tristeza, raiva, ansiedade, vergonha, revolta ou dificuldade para falar sobre a deficiência. Algumas pessoas também passam por um processo emocional semelhante ao luto — não necessariamente pela perda completa da visão, mas pelas mudanças na rotina, nos planos e na imagem que tinham de si mesmas.
Esses sentimentos não significam fraqueza ou falta de gratidão. Eles podem fazer parte do processo de compreender uma nova realidade.
O luto pela mudança da visão
O luto não acontece somente após a morte de alguém. Ele também pode aparecer diante de mudanças importantes na saúde, na autonomia ou nos projetos de vida.
No caso da baixa visão, a pessoa pode viver momentos de:
- negação ou dificuldade para acreditar no diagnóstico;
- medo da progressão da condição visual;
- raiva e sensação de injustiça;
- tristeza pelas atividades que ficaram mais difíceis;
- insegurança para utilizar bengala, recursos de acessibilidade ou pedir ajuda;
- preocupação com dependência, preconceito e capacitismo.
Essas experiências não seguem uma ordem obrigatória. Cada pessoa reage de maneira diferente e precisa de um tempo próprio para compreender o diagnóstico. Não existe um prazo para “aceitar” a deficiência, e ninguém deve ser pressionado a demonstrar força ou positividade o tempo todo.
Aceitação não significa gostar da deficiência, desistir de tratamentos ou fingir que não existem dificuldades. Significa reconhecer a realidade atual e, aos poucos, encontrar recursos para continuar vivendo com dignidade, autonomia e participação social.
Como a terapia pode ajudar
A terapia oferece um espaço de escuta profissional, protegido e sem julgamentos. Durante o acompanhamento psicológico, a pessoa pode aprender a identificar suas emoções, falar sobre seus medos e desenvolver maneiras mais saudáveis de enfrentar as mudanças.
O processo terapêutico pode ajudar a:
- elaborar o impacto emocional do diagnóstico;
- enfrentar ansiedade, tristeza e medo do futuro;
- reconstruir a autoestima e a identidade;
- estabelecer limites nas relações familiares;
- lidar com comentários capacitistas;
- aprender a pedir ajuda sem se sentir inferior;
- reconhecer habilidades que continuam presentes;
- planejar adaptações para recuperar ou ampliar a autonomia.
A terapia não tem como objetivo fazer a pessoa “se conformar” com tudo. Um atendimento psicológico adequado deve respeitar sua autonomia, suas escolhas e seu protagonismo.
O Conselho Federal de Psicologia orienta que o atendimento às pessoas com deficiência seja acessível, anticapacitista e baseado no respeito à diversidade de experiências. O profissional não deve tratar a pessoa como incapaz nem reduzir todos os seus sentimentos à deficiência.
Terapia também pode fazer parte da reabilitação
A reabilitação da pessoa com baixa visão não envolve somente o uso de lupas, bengalas, tecnologias assistivas ou treinamentos de mobilidade. O cuidado psicossocial também é importante.
A Lei Brasileira de Inclusão determina que a habilitação e a reabilitação são direitos da pessoa com deficiência. Esse processo deve contribuir para o desenvolvimento das capacidades físicas, cognitivas, sensoriais, psicossociais e profissionais, favorecendo a autonomia e a participação social.
Quando possível, é importante buscar um acompanhamento integrado, que pode envolver oftalmologista, psicólogo, terapeuta ocupacional, profissional de orientação e mobilidade e outros especialistas, conforme as necessidades de cada pessoa.
Quando procurar ajuda profissional
Nem toda pessoa diagnosticada com baixa visão obrigatoriamente precisará de terapia. Entretanto, é importante buscar ajuda quando o sofrimento estiver prejudicando o sono, a alimentação, os relacionamentos, o trabalho, os estudos ou a vontade de realizar atividades cotidianas.
Também merecem atenção sinais como isolamento prolongado, crises frequentes de ansiedade, desesperança intensa, sensação de inutilidade ou dificuldade persistente para lidar com o diagnóstico.
A saúde mental é influenciada por fatores biológicos, psicológicos e sociais. O Ministério da Saúde destaca que o cuidado deve considerar a pessoa de forma integral, incluindo o ambiente, as relações, as condições de vida e as barreiras enfrentadas.
Onde buscar atendimento pelo SUS
A Unidade Básica de Saúde, conhecida como UBS ou posto de saúde, é uma das principais portas de entrada para receber orientação e iniciar o cuidado em saúde mental.
Em situações de sofrimento psíquico intenso, a pessoa também pode procurar diretamente um Centro de Atenção Psicossocial, o CAPS. Esses serviços públicos possuem equipes multiprofissionais e podem oferecer apoio psicológico, terapias individuais ou em grupo, acolhimento de crises e acompanhamento psicossocial.
Para localizar o serviço mais próximo, procure a UBS ou a Secretaria Municipal de Saúde da sua cidade.
Você não precisa enfrentar esse processo sozinho
Receber o diagnóstico de baixa visão pode ser difícil, mas ele não elimina a história, os conhecimentos, os sonhos e as capacidades de uma pessoa.
Com acolhimento psicológico, reabilitação, informação acessível, tecnologias assistivas e uma rede de apoio respeitosa, é possível construir novas formas de realizar atividades, tomar decisões e participar da sociedade.
O caminho não precisa ser perfeito nem rápido. Pedir ajuda também é uma forma de cuidar da própria autonomia.
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O curso é um conteúdo educativo e não substitui acompanhamento psicológico, médico, oftalmológico ou um programa individualizado de habilitação e reabilitação.
Fontes oficiais
Ministério da Saúde — Saúde Mental
Ministério da Saúde — Centros de Atenção Psicossocial, CAPS
Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência — Lei nº 13.146/2015
Conselho Federal de Psicologia — Atuação profissional junto às pessoas com deficiência
Organização Mundial da Saúde — Saúde ocular, deficiência visual e qualidade de vida
