Nem toda dor é visível
Quando se fala em baixa visão, muitas pessoas pensam somente na dificuldade para enxergar. Porém, quem vive essa realidade sabe que os impactos podem ir muito além dos olhos.
A perda ou a redução da visão pode mudar a maneira de sair de casa, trabalhar, estudar, usar telas, reconhecer pessoas, circular pela cidade e realizar tarefas simples do cotidiano. Também pode surgir o medo de perder ainda mais a visão, depender de outras pessoas ou não conseguir manter a mesma rotina de antes.
Além das limitações visuais, existe o peso da falta de acessibilidade e do capacitismo. Frases como “você não parece ter deficiência”, “mas você consegue mexer no celular” ou “é só se esforçar mais” fazem a pessoa se sentir constantemente obrigada a provar aquilo que vive.
Esse cansaço também afeta a saúde emocional.
O que os estudos mostram
A deficiência visual não causa depressão ou ansiedade automaticamente. Cada pessoa reage de uma maneira, possui uma história e conta com diferentes condições de apoio.
Entretanto, revisões científicas indicam que depressão e deficiência visual podem coexistir com frequência. Uma meta-análise publicada em 2021 encontrou prevalência estimada de depressão em aproximadamente 25% das pessoas com deficiência visual analisadas. Esse número varia conforme a idade, a população e os métodos utilizados em cada pesquisa, portanto não significa que todas as pessoas com baixa visão terão depressão.
Outra revisão científica também identificou índices elevados de sintomas de depressão e ansiedade entre pessoas com deficiência visual, destacando a necessidade de integrar o cuidado com a saúde mental aos serviços oftalmológicos e de reabilitação.
Fontes científicas:
O Ministério da Saúde também explica que doenças crônicas, dolorosas ou incapacitantes podem aumentar a vulnerabilidade emocional quando aparecem junto com outros fatores. Isso não significa que uma deficiência determine uma crise ou um comportamento suicida. O sofrimento emocional é complexo e precisa ser avaliado com cuidado.
Fonte oficial:
Existe um luto pela mudança da visão
Algumas pessoas passam por um processo parecido com o luto quando recebem um diagnóstico ou percebem o avanço da perda visual.
Pode existir tristeza pela rotina que mudou, pelas atividades que ficaram mais difíceis ou por planos que precisarão ser adaptados. Medo, raiva, insegurança, frustração e sensação de injustiça também podem aparecer.
Esses sentimentos não representam falta de força ou de gratidão. Eles mostram que a pessoa está tentando compreender uma mudança importante em sua vida.
A adaptação não acontece de forma rápida nem igual para todos. É possível ter dias de coragem e, ao mesmo tempo, dias de medo. Aceitar apoio não diminui a autonomia. Em muitos casos, o apoio adequado ajuda a pessoa a recuperá-la.
Sinais de que é hora de procurar ajuda
É importante buscar ajuda profissional quando o sofrimento começa a interferir constantemente na rotina. Alguns sinais merecem atenção:
- Tristeza intensa ou frequente;
- Isolamento e vontade de evitar outras pessoas;
- Perda do interesse por atividades que antes davam prazer;
- Alterações persistentes no sono ou na alimentação;
- Crises de ansiedade, medo ou irritabilidade;
- Sentimento constante de culpa, inutilidade ou incapacidade;
- Abandono do autocuidado e dos tratamentos de saúde;
- Uso crescente de álcool ou outras substâncias para aliviar a dor;
- Falas sobre não ter esperança, querer desaparecer ou não encontrar motivos para continuar;
- Pensamentos sobre se machucar ou tirar a própria vida.
Um sinal isolado não permite fazer um diagnóstico. Porém, mudanças intensas, persistentes ou vários sinais acontecendo ao mesmo tempo não devem ser ignorados.
Comentários sobre morte ou falta de vontade de viver precisam ser levados a sério. Eles não devem ser tratados como drama, chantagem, falta de fé ou desejo de chamar atenção.
Fé e acompanhamento profissional podem caminhar juntos
A fé pode ser uma fonte importante de força, significado, esperança e pertencimento. A oração, a espiritualidade e o apoio de uma comunidade religiosa podem ajudar muitas pessoas a atravessar momentos difíceis.
Entretanto, a fé não deve ser usada para responsabilizar ou culpar quem está sofrendo. Depressão, ansiedade e crises emocionais não significam falta de Deus, falta de gratidão ou fraqueza espiritual.
Uma pessoa pode orar, manter sua fé e, ao mesmo tempo, precisar de psicólogo, psiquiatra, medicamentos, reabilitação visual ou atendimento em um serviço público de saúde.
Procurar tratamento também é um gesto de fé, coragem e cuidado com a própria vida.
Como apoiar uma pessoa com baixa visão em sofrimento
A rede de apoio pode ser formada por familiares, amigos, profissionais de saúde, pessoas da comunidade, grupos de pessoas com deficiência e instituições especializadas.
Algumas atitudes realmente ajudam:
- Escute com atenção e sem fazer comparações;
- Acredite quando a pessoa falar sobre as dificuldades que enfrenta;
- Não diga que ela precisa “ser forte” o tempo todo;
- Evite frases como “poderia ser pior” ou “pelo menos você ainda enxerga alguma coisa”;
- Pergunte de que forma pode ajudar;
- Ofereça-se para acompanhá-la a uma UBS, CAPS ou consulta;
- Ajude a pesquisar endereços e meios acessíveis de transporte;
- Envie informações por texto e também por áudio, quando necessário;
- Leia números, endereços e orientações em voz alta;
- Pergunte antes de tocar na pessoa, guiá-la ou segurar sua bengala;
- Respeite a autonomia e as decisões da pessoa;
- Continue presente depois do primeiro pedido de ajuda.
Apoiar não é controlar. É permanecer perto, ouvir, facilitar o acesso aos serviços e ajudar a pessoa a não enfrentar tudo sozinha.
Onde procurar atendimento gratuito pelo SUS
Unidade Básica de Saúde — UBS
A UBS pode ser a primeira porta de entrada para quem está enfrentando ansiedade, tristeza persistente, alterações no sono ou outras dificuldades emocionais.
A equipe poderá realizar o acolhimento inicial e, conforme a necessidade, organizar o acompanhamento ou encaminhar a pessoa para outro serviço da Rede de Atenção Psicossocial.
Centro de Atenção Psicossocial — CAPS
Os CAPS são serviços públicos e comunitários de saúde mental. Eles contam com equipes multiprofissionais, que podem incluir psicólogos, médicos, terapeutas ocupacionais, enfermeiros e assistentes sociais.
O Ministério da Saúde informa que é possível procurar diretamente o CAPS da região para solicitar o primeiro acolhimento, sem precisar marcar consulta antecipadamente. A equipe avalia as necessidades e indica o cuidado mais adequado.
Para encontrar o CAPS mais próximo, procure a Secretaria Municipal de Saúde ou pergunte na UBS da sua região.
Informações oficiais:
Para quem mora na cidade de São Paulo
Na capital paulista, os CAPS trabalham em regime de porta aberta. A Prefeitura também disponibiliza uma relação das unidades e uma ferramenta para localizar os serviços pelo endereço.
Relação dos CAPS:
Busca Saúde da Prefeitura de São Paulo:
Reabilitação visual também faz parte do cuidado emocional
Receber orientação sobre mobilidade, tecnologias assistivas, atividades da vida diária e uso da visão residual pode aumentar a segurança e a autonomia.
O SUS possui uma Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência. Entre os serviços estão os Centros Especializados em Reabilitação, conhecidos como CER. A rede oferece ações de habilitação e reabilitação e também deve considerar familiares, cuidadores e acompanhantes.
A pessoa pode procurar uma UBS para saber quais serviços de reabilitação visual estão disponíveis em sua cidade ou região.
Informações oficiais:
Instituições de apoio à pessoa com deficiência visual
Fundação Dorina Nowill para Cegos
A Fundação Dorina oferece serviços gratuitos para pessoas cegas e com baixa visão e seus familiares, incluindo habilitação, reabilitação, educação especial, clínica de visão subnormal e empregabilidade.
Telefone: (11) 5087-0999 — opção 2
E-mail: atendimento@fundacaodorina.org.br
Site:
Laramara
A Laramara atua no atendimento especializado, no desenvolvimento da autonomia, na inclusão social e na defesa dos direitos das pessoas com deficiência visual.
Telefone: (11) 3660-6400
Site:
Essas instituições não substituem serviços de urgência ou tratamento em saúde mental, mas podem contribuir para a reabilitação, a autonomia e a construção de uma rede de apoio.
Telefones úteis
CVV — Centro de Valorização da Vida
Telefone: 188
O atendimento é gratuito, sigiloso e funciona 24 horas por dia em todo o Brasil. Também há atendimento por chat e e-mail.
O CVV oferece escuta e apoio emocional, mas não substitui atendimento médico, psicológico ou de urgência.
Site:
SAMU — atendimento de urgência
Telefone: 192
Ligue para o SAMU quando existir risco imediato de a pessoa se machucar, tirar a própria vida ou quando houver qualquer outra emergência de saúde.
O serviço é gratuito e funciona 24 horas.
Informações oficiais:
OuvSUS — informações e manifestações sobre o SUS
Telefone: 136
O canal oferece informações sobre o SUS e recebe solicitações, reclamações, denúncias, sugestões e elogios.
O atendimento telefônico funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 20h, e aos sábados, das 8h às 18h.
Site:
Disque Direitos Humanos
Telefone: 100
O Disque 100 recebe denúncias de violações de direitos humanos, inclusive contra pessoas com deficiência. O atendimento é gratuito e funciona 24 horas, todos os dias.
WhatsApp: +55 61 99611-0100
Site:
Disque Social
Telefone: 121
O Disque Social fornece informações sobre políticas, programas, benefícios e serviços do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social.
O atendimento humano funciona de segunda a sexta-feira, das 7h às 19h. O atendimento eletrônico funciona 24 horas.
Site:
O que fazer em uma situação de risco imediato
Se uma pessoa disser que pretende se machucar ou tirar a própria vida, leve a situação a sério.
- Não deixe a pessoa sozinha;
- Ouça sem julgamento;
- Entre em contato com alguém de confiança indicado por ela;
- Ligue para o SAMU pelo número 192;
- Procure uma UPA 24 horas, pronto-socorro ou hospital;
- Ofereça-se para acompanhá-la;
- Não prometa guardar segredo quando a vida estiver em risco.
O Ministério da Saúde orienta a manter contato com a pessoa e ajudá-la a chegar aos serviços profissionais.
Uma mensagem para quem vive com baixa visão
Você não precisa provar a sua dor para merecer acolhimento.
Existem dias em que a coragem será sair de casa com a bengala. Em outros, será admitir que não está bem. Também haverá dias em que coragem significará fazer uma ligação, pedir companhia ou aceitar ajuda.
Sua deficiência não diminui o valor da sua vida. Precisar adaptar caminhos não significa que todos os caminhos terminaram.
A fé pode sustentar. A reabilitação pode devolver autonomia. A acessibilidade pode abrir portas. O acompanhamento profissional pode ajudar a organizar sentimentos que parecem impossíveis de carregar.
Você não precisa ser forte o tempo todo — mas não precisa enfrentar tudo sozinho.
Se precisar, peça ajuda.
Aviso importante
Este conteúdo possui finalidade informativa e educativa. Ele não substitui avaliação, diagnóstico ou acompanhamento realizado por profissionais de saúde.
Em situação de risco imediato, ligue para o SAMU pelo 192 ou procure uma UPA, pronto-socorro ou hospital. Para conversar de forma gratuita e sigilosa, ligue para o CVV pelo 188.
