A bengala longa é muito mais do que um bastão. Para uma pessoa cega ou com baixa visão, ela funciona como uma extensão do corpo e ajuda a perceber obstáculos, mudanças no piso, degraus, desníveis e outras informações importantes durante o deslocamento.
Mas existe uma dúvida muito comum, principalmente para quem está começando a usar bengala: qual é o tamanho correto?
A resposta não é simplesmente escolher uma bengala de acordo com a altura da pessoa. Existe uma medida de referência, mas o comprimento ideal também pode variar conforme o corpo, o tamanho dos passos e a forma de caminhar.
Primeiro, estamos falando da bengala longa
É importante deixar claro que este conteúdo trata da bengala longa utilizada por pessoas com deficiência visual.
Ela não é a mesma bengala utilizada como apoio para problemas de equilíbrio, dores ou dificuldades motoras.
Segundo o Instituto Benjamin Constant, a bengala longa é um recurso de tecnologia assistiva utilizado por pessoas cegas, com baixa visão ou surdocegueira. Seu objetivo é auxiliar na locomoção e na identificação de informações e obstáculos existentes no caminho.
Então, qual é a medida correta da bengala longa?
De acordo com materiais do Instituto Benjamin Constant, o tamanho da bengala longa deve ser personalizado.
Para chegar a uma medida inicial, são considerados fatores como:
- estatura da pessoa;
- tipo físico;
- extensão do passo;
- forma de caminhar;
- necessidades individuais de mobilidade.
Como referência, normalmente é utilizada uma linha reta que vai da parte inferior do osso esterno até o chão.
Como encontrar essa medida?
Fique em pé, em posição natural, de preferência usando o calçado que costuma utilizar no dia a dia.
Localize a parte inferior do esterno. É a região central do peito, onde termina o osso que fica entre as costelas, próxima do que popularmente chamamos de boca do estômago.
Com uma fita métrica, meça verticalmente desse ponto até o chão.
Essa medida serve como referência inicial e não substitui uma avaliação individual de Orientação e Mobilidade.
Por que não existe uma medida única para todas as pessoas?
Duas pessoas com a mesma altura não necessariamente precisam utilizar exatamente a mesma bengala.
Uma pessoa pode dar passos mais longos. Outra pode caminhar com passos menores. Também existem diferenças de postura, comprimento dos braços, velocidade de caminhada, sensibilidade tátil e técnica utilizada.
Por isso, medir apenas a altura total da pessoa e comprar uma bengala usando uma tabela genérica pode não ser a melhor escolha.
O próprio Instituto Benjamin Constant destaca que o comprimento da bengala é personalizado e considera, além da estatura, o tipo físico e a extensão do passo.
Alguns tamanhos encontrados em bengalas longas
O Guia Prático de Orientação e Mobilidade do Instituto Benjamin Constant apresenta alguns exemplos de medidas de bengalas comercializadas em metros e polegadas.
| Medida em metros | Medida aproximada em polegadas |
|---|---|
| 1,10 m | 42 |
| 1,15 m | 44 |
| 1,20 m | 46 |
| 1,25 m | 48 |
| 1,30 m | 50 |
| 1,35 m | 52 |
Atenção: essa tabela não significa que todas as pessoas devam obrigatoriamente escolher uma dessas medidas. Ela mostra exemplos apresentados pelo Instituto Benjamin Constant. Existem fabricantes que trabalham com outros comprimentos e a escolha deve considerar cada pessoa.
Uma bengala maior é sempre melhor?
Não.
A ideia de que quanto maior a bengala, maior será a proteção, pode levar a uma escolha inadequada.
A bengala precisa permitir que a pessoa explore o espaço à sua frente de maneira confortável e compatível com seus passos.
O mesmo vale para uma bengala muito curta. O importante não é encontrar a maior ou a menor bengala, mas aquela que funcione adequadamente para a pessoa.
A medida também pode mudar com o tempo?
Sim.
Uma criança, por exemplo, cresce e pode precisar trocar a bengala. Um adulto também pode perceber mudanças na forma de caminhar, na velocidade dos passos ou nas suas necessidades de mobilidade.
Por isso, vale reavaliar o tamanho quando a bengala parece desconfortável ou quando a pessoa percebe que sua maneira de caminhar mudou.
Não basta ter a bengala. É importante aprender a utilizá-la
Comprar uma bengala e sair caminhando com ela sem nenhuma orientação pode fazer com que a pessoa não aproveite todo o potencial desse recurso.
Na Orientação e Mobilidade, conhecida também pela sigla OM, a pessoa aprende técnicas e estratégias para se deslocar com mais segurança e independência.
Esse aprendizado pode envolver o uso correto da bengala, técnicas de toque, identificação de mudanças de piso, localização de referências, escadas, portas, calçadas, ambientes internos, transporte e deslocamentos em áreas externas.
O treinamento também pode ajudar a pessoa a compreender melhor sons, pistas do ambiente e pontos de referência que auxiliam na localização.
Onde procurar Orientação e Mobilidade pelo SUS?
Essa é uma informação importante porque muitas pessoas não sabem que a reabilitação da pessoa com deficiência faz parte da rede do Sistema Único de Saúde.
O Ministério da Saúde mantém a Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência. Dentro dessa rede existem serviços especializados em habilitação e reabilitação, incluindo os Centros Especializados em Reabilitação, conhecidos como CER.
Alguns CER oferecem atendimento na modalidade de deficiência visual. Como os serviços são organizados regionalmente, nem toda cidade possui um CER com reabilitação visual.
Para quem mora em qualquer estado do Brasil, um bom primeiro caminho é procurar a Unidade Básica de Saúde, a UBS, do seu município.
Na UBS, explique que você é uma pessoa com deficiência visual e que precisa de avaliação ou encaminhamento para reabilitação visual e Orientação e Mobilidade.
Dependendo da organização da rede na sua região, a UBS poderá encaminhar para um CER ou para outro serviço especializado de referência.
E se a UBS não souber onde existe esse atendimento?
Você pode procurar a Secretaria Municipal de Saúde e perguntar qual é o serviço de referência para reabilitação de pessoas com deficiência visual na sua região.
Também é possível procurar a Secretaria Estadual de Saúde, principalmente quando o atendimento especializado fica em outro município.
Outra opção é entrar em contato com o Disque Saúde 136, canal oficial do Ministério da Saúde, para pedir informações sobre a rede do SUS.
Na hora de pedir informação, tente usar estas palavras:
“Preciso de atendimento de reabilitação para deficiência visual e gostaria de saber onde existe serviço de Orientação e Mobilidade ou treinamento para uso da bengala longa na minha região.”
E o CRAS?
O CRAS faz parte da assistência social e não é o serviço responsável pelo treinamento de Orientação e Mobilidade.
Mesmo assim, ele pode ser útil para orientar a pessoa sobre serviços existentes no território, direitos sociais e outros atendimentos da rede pública.
Para buscar especificamente reabilitação visual e Orientação e Mobilidade, a área da saúde, começando pela UBS e seguindo para os serviços especializados da Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência, costuma ser o caminho mais adequado.
Crianças e adolescentes também podem procurar ajuda pela escola
Quando a pessoa com deficiência visual é estudante, a escola e o Atendimento Educacional Especializado também podem ajudar a identificar serviços e profissionais que trabalham com Orientação e Mobilidade.
As Secretarias Municipais e Estaduais de Educação podem informar quais serviços de educação especial ou centros de atendimento à pessoa com deficiência visual estão disponíveis na região.
Orientação e Mobilidade não significa perder independência
Na verdade, acontece justamente o contrário.
Aprender técnicas adequadas pode ajudar a pessoa a conhecer melhor o ambiente, interpretar informações ao seu redor e utilizar a bengala de forma mais eficiente.
Para algumas pessoas, o processo começa dentro de casa. Depois passa para corredores, escadas, calçadas, transporte público e outros lugares do cotidiano.
Cada pessoa tem seu próprio ritmo.
Para lembrar
A medida de referência da bengala longa vai da parte inferior do esterno até o chão.
Mas essa medida não deve ser encarada como uma fórmula obrigatória.
A estatura, o tipo físico, o tamanho dos passos e as necessidades de cada pessoa também precisam ser considerados.
Quando possível, procure um profissional ou serviço de Orientação e Mobilidade para avaliar a medida e ensinar as técnicas de uso da bengala.
Fontes oficiais consultadas
Instituto Benjamin Constant
Guia Prático de Orientação e Mobilidade
https://www.gov.br/ibc/pt-br/centrais-de-conteudos/publicacoes/revista-cientifica-2014-benjamin-constant/copy_of_livros/materiais-didaticos-1/guia-o-m_final___-1.pdf
Instituto Benjamin Constant
Material sobre Orientação e Mobilidade e comprimento da bengala longa
https://www.gov.br/ibc/pt-br/pesquisa-e-tecnologia/publicacoes-do-ibc-1/livros_pdf/anexos/conectando_conhec_2020_final_compressed.pdf
Ministério da Educação
Orientação e Mobilidade: conhecimentos básicos para a inclusão da pessoa com deficiência visual
https://portal.mec.gov.br/pnld/192-secretarias-112877938/seesp-esducacao-especial-2091755988/12666-orientacao-e-mobilidade-conhecimentos-basicos-para-a-inclusao-da-pessoa-com-deficiencia-visual
Ministério da Saúde
Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência
https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/s/saude-da-pessoa-com-deficiencia/rcpd
Ministério da Saúde
Perguntas frequentes sobre os Centros Especializados em Reabilitação
https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/s/saude-da-pessoa-com-deficiencia/faq
Ministério da Saúde
Canais de atendimento e Disque Saúde 136
https://www.gov.br/saude/pt-br/canais-de-atendimento/canais-de-atendimento
